quinta-feira, 29 de julho de 2010

Um Diálogo Sem Graça

- Você está vendo?
- O que?
- Ali, olha!
- Não, eu não consigo.
- Mentira.
- Não é mentira.
- É. Você não quer ver.
- É.
- Mas está ali.
- Eu sei que está.
- Sim.
- Mas é pequeno, você não viu?
- Vi, mas vai aumentar.
- Nem consigo distinguir a cor.
- É preto.
- Eu sei.
- Mentiu de novo.
- Não fala.
- Não irei.
-
-
-
-
- Olha, está crescendo.
- Ele vai nos engolir.
- Ele vai me engolir.
- Você é forte, não?
- Não.
- Desvia.
- Não posso.
- Por quê?
- Não tem como fugir de um buraco.
- Tem, você pode.
- Eu podia.
- Você está caindo.
- Não quero a sua opinião!
- Você está enlouquecendo.
- Você não me ouviu?
- Ouvi.
- Onde você está indo?
- Eu consigo fugir, mas já você...
- Já eu?
- Não importa a onde você for...
- Onde eu for?
- Esse buraco vai te perseguir, ele vai te engolir.
- Ele não vai.
- Ele já está.
- Sim.
- Adeus.
- Adeus consciência.
- Você está me perdendo.
- Eu já perdi.
- Você não me ouve.
- Estou ouvindo agora.
- Porque não estou falando o que você não quer ouvir.
- Adeus.
- Está fugindo.
- Estou.
- Adeus.

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